GERAÇÕES DO BODYBOARDING FEMININO

Por Kátia Cristina.

O início da história do bodyboarding feminino no Estado do Ceará, entre as décadas de 80 e 90, se entrelaça com a vida de mulheres admiráveis em seus modos de ser e estar no mundo. Em meados de 1986, aos 11 anos, ouvia de amigas (os) da Barra do Ceará, praia que morei até 1991 e atualmente pico preferido – Boca do “Tubarão” (encontro do Rio Ceará e o mar, em Fortaleza) – que Margarida e Graziela (locais da Praia do Futuro – campeãs estaduais de 1986 e 1987, respectivamente) e Anastácia (local da Praia de Iracema – campeã estadual de 1988) gostavam de pegar ondas com prancha de bodyboarding e realizavam manobras radicais. Este período foi marcado pelo começo de associações em prol do esporte no estado e de impulsos para o crescimento da categoria feminina.

Com apoio da família, frequentei a praia da Barra do Ceará e integrava um grupo de amigas que também começavam a mesma paixão de conhecer o mundo do bodyboarding. Nossa curiosidade e vontade de aprender foram aumentando e em companhia de Ana Cristina (local da Barra do Ceará, campeã estadual de 1989), Carla Cristina, Nadja, Vilena, Neli, Elisângela, Sandra, Ayla, Viviane, Liliane, Ticiane, Paula, Veridiana, vivenciei o início da história do esporte. Na época não tínhamos facilidades de deslocamento e informação sobre o nível de maré, previsões de período das ondas e de aquisição de equipamentos – prancha de bodyboarding, pés de pato e estrepe, mas tínhamos sonhos, coragem e amor pelo mar.

Como crianças ativas e brincantes, descíamos o Rio Ceará em tempo secante. Neste momento, a certeza de desembocar no oceano nos cativava pela leveza e os mergulhos às margens das correntezas do rio para o encontro com as ondas. O contato com o oceano, a presença dos amigos e a sensação de explorar as águas e as ondas, nos permitiram perceber a vida em atenção à natureza.

A possibilidade de brincar com a força do rio, e surfar as ondas, nos fez explorar em travessia novos caminhos para outras praias, por exemplo, Praia de Iparana/Coqueiral. Desde então, por várias temporadas, ainda vivenciamos essa aventura. A vontade de aprender e praticar o esporte cresceu nessa geração, com respeito ao limite, e, sobretudo, a continuar a prática do esporte ou por, simplesmente, frequentar a praia com a família e amigas (os), nos impulsionou a sentir experiências magníficas.

Nessa época, acompanhei uma evolução extraordinária do bodyboarding feminino e surgiram atletas maravilhosas como: Joana, Amaya, Rafaela, Alessandra, Elisângela, dentre outras que representaram o esporte com inovações de manobras, garra, força e comprometimento na década de 90.

Nos anos 2000, nosso estado passou a apresentar ainda mais evolução das performances das atletas que integraram essa geração, apesar das inúmeras dificuldades em investimentos em competições e profissionalização. Atualmente, por exemplo, nos últimos três anos não acontecem campeonatos a nível nacional. Contudo, temos nomes importantes em âmbitos estadual, nacional e mundial (nível profissional e amador) que participam de campeonatos e/ou seguem o esporte como parte de sua qualidade de vida. Alguns nomes podem ser destacados como de: Marília, Renata, Patrícia, Dalete, Sâmia, Sabrina, Lívia, Ingrid, Natália, Jamille, Rebecca, Karol, Vitória, Emanuelle, Daniele, em especial, nossa tetracampeã mundial Isabela Sousa.

Recentemente, ao participar de um evento que visou compartilhar experiências e aprendizagens com foco no bodyboarding – “Um dia de campeão”, na praia do Futuro, com Isabela Sousa e Roberto Bruno (pentacampeão brasileiro), pude perceber a evolução do esporte em diferentes aspectos, dentre eles: a importância do conhecimento de si e do movimento do corpo para realização de manobras, a confiança que deve ser considerada pela pessoa acerca das condições do mar e dos equipamentos. Além de presenciar nesse percurso a seriedade, coragem, compromisso, dificuldades e alegrias que esses campeões vivenciaram no esporte partilhando seu trabalho como profissionais.

Nesse contexto, sinto-me feliz em testemunhar, que encontramos, por exemplo, nas diversas escolas de bodyboarding e nas praias cearenses, a formação de novas atletas ou free-surf/geração que ama estar na água por paixão pelo mar, pela natureza e ao esporte! A participação na categoria feminino do circuito máster cearense tem instigado nossa volta às competições em encontros com atletas com mais de 40 anos de idade, que ainda praticam o esporte. A simplicidade desse encontro para um dia de surf representa a grandeza que a vida no esporte proporciona em saúde e jovialidade de estarmos juntas no mar!

Considero a atual geração do bodyboarding feminino de uma “inteireza humana” extraordinária, no que se refere ao conhecimento de si, das ondas, das manobras, dos equipamentos, da maternidade, da presença do esporte na vida pessoal, da responsabilidade ambiental, da conciliação entre a família, os estudos e o esporte como profissão.

Após o período de competições, em 1991 e praticando o bodyboarding até hoje, sinto-me lisonjeada em viver esse estilo de vida, seja pelo simples pôr do sol visto de dentro do mar, pelo encontro de amigas que tenho desde criança, por um mergulho de energia no oceano, por acreditar pessoalmente na presença espiritual de meu companheiro Wladimir Lobo (in memorian) que nos deixou em abril 2017, seja pela presença feminina no esporte. Admiro o que o bodyboarding pode proporcionar às pessoas, considerando seus diferentes contextos, valores e crenças!

A participação feminina no bodyboarding apresenta uma relevância cultural, política e econômica bem significativa, pois agrega momentos históricos que vivenciamos nas lindas praias e pela iniciativa de estarmos juntas em uma luta que se constitui além do reconhecimento do esporte como profissão e de atletas, mas como oportunidade ao bem-estar, qualidade de vida e direitos humanos. Nesse contexto, agradeço o convite proposto pelo coordenador do site “Nas Ondas do Ceará”, Marley Araújo, e espero que possamos colaborar com o fortalecimento e reconhecimento do bodyboarding feminino no Estado do Ceará.

4 comments

  1. Naturalmente alguns nomes faltaram…só lembrando daniele Rogério e Mariza rios…em 1986 fundamos a obfor..org de bodyboard de fortaleza. ..parabens pela materia.muito bom ler sobre surf bodyboard.aloha.

  2. Fico feliz de ver a Barra do Ceará ser tratada com tanto respeito como um point a ser lembrado e celebrado. Comecei com um casca grossa lá na “boca do tubarão” na década de 80 e seu texto me fez recordar momentos maravilhosos da infância. Parabéns a todas as meninas que fizeram e fazem a história do nosso esporte!

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