ESCOLINHAS, BODYBOARDING E CIDADANIA

Por Kátia Cristina.

kátia

Nos últimos anos, tenho observado o crescimento de ações coletivas que envolvem educadores sociais, em nossa orla cearense, que se dedicam a organizar “movimentos que envolvem o bodyboarding”, como prioridade. Entendo que o esporte deve ser usado como ferramenta de inclusão social. Considero importante o trabalho político, social e pedagógico das “escolinhas”, de maneira que integra e valoriza o esporte e a vida. Acredito que isso oportuniza diversas aprendizagens, por exemplo, a consciência de si e do outro, conhecimento e habilidades do uso de uma prancha e suas manobras, além de ser uma atividade terapêutica.

Atualmente, em nossas belas praias, em especial, na Praia da Taíba, Icaraí, Barra do Ceará, Náutico e Praia do Futuro encontramos escolinhas que atendem crianças, jovens e adultos para o engajamento neste esporte e, acima de tudo, para a formação da cidadania.

De forma breve, destaco algumas informações sobre as escolinhas que realizam um trabalho no âmbito social, em especial, que têm o bodyboarding como atividade cotidiana, como também, deixarei alguns contatos de redes sociais delas para incentivar a prática deste esporte.

Durante os dois últimos anos, tenho participado do Circuito Master Vip Francisco Rosa, campeonato de bodyboarding que envolve os mais antigos atletas estaduais, e ele tem também o objetivo de contribuir com materiais e equipamentos para as escolinhas. Nesse contexto, fiquei curiosa e gostaria de evidenciar o trabalho que tem sido realizado em nossa orla para promoção do esporte, além do trabalho pioneiro de organização desses projetos, seja de âmbito social ou particular. Então, onde estão essas escolinhas? O que fazem? Quem são as pessoas envolvidas? Que dificuldades enfrentam? Quais os benefícios?

Compartilho um pouco sobre como tudo começou e o que temos em nossa orla como projeto social. No Estado do Ceará, a primeira escola de bodyboarding teve início com o trabalho desenvolvido pelo atual campeão cearense profissional, Eduardo Freitas, nos anos 2000, na praia do Diário. Em 2001, juntamente, com o ex-head judge e grande promotor do esporte, Amadeu Júnior, eles atuaram intensamente na orla da Praia do Futuro, mais precisamente no Caça e Pesca, e fundaram a Escolinha de Bodyboarding Caça e Pesca (EBCP). Depois, Amadeu fundou uma na Praia do Pecém, distrito do município de São Gonçalo do Amarante, mas atualmente não está desenvolvendo atividades sociais. Em meados de 2003, Eduardo passou a residir na praia do Icaraí e fundou a Escolinha de Bodyboarding do Icaraí (EBI), finalizando atividades em meados de 2016. Esse projeto social atendeu, em média, anualmente, mais de 100 crianças e jovens de diversas comunidades. Durante 14 anos de atividades da EBI, o coordenador não teve apoio financeiro originado e permanente da rede pública para a organização, mas foram atendidos, assistencialmente, com bolsas individuais e cestas básicas. Na época, a escolinha sustentava-se de doações, ação comum entre elas que desenvolvem projetos sociais. Nesse período, nossa maior atleta da história do esporte foi revelada, Isabela Sousa. Atualmente, ela possui quatro títulos mundiais e segue brigando pelo quinto, que lhe colocará na condição de maior de todas do país e do planeta, juntamente com a capixaba Neymara Carvalho. No ano de 2017, não foi possível continuar com as atividades e Eduardo iniciou um trabalho de âmbito particular e personalizado com aulas de bodyboarding. O atendimento pode ser encontrado na praia do Icaraí ou Tabuba, por meio de contatos nas redes sociais “@ef_coach” (Instagram) ou “EF bodyboarder coach” (Facebook).

De forma semelhante, encontramos esse atendimento com o hexacampeão estadual, Luís Gustavo, na PF Surf School (@pfsurfschool), como também, com nosso cearense pentacampeão brasileiro, Roberto Bruno (@robertobrunobodyboardingschool), ambos na Praia do Futuro. Já na Praia do Náutico, o atleta grand master Paulo Emílio (@bboardersschoolemiliorocha) é quem oferece esse atendimento.

Considero que o pioneirismo de Eduardo impulsionou o início de um trabalho social no nosso esporte, o qual, alguns atletas e educadores sociais têm lutado atualmente para a permanência e desenvolvimento deles. Já pensaram que se tivéssemos políticas públicas com ações permanentes em nosso esporte haveriam mais revelações, campeões e cidadãos atuantes?

Em nossa orla, levantei informações de pelo menos 08 escolinhas de âmbito social e privado que funcionam com atividades que envolvem o bodyboarding. Desse total, apenas 05 (cinco) caracterizam-se como projetos sociais que atendem crianças e jovens para a prática, exclusivamente, do bodyboarding.

De forma geral, as escolinhas objetivam contribuir com inclusão social para a cidadania, além de formar esportistas e atletas. Segue, primeiro, as informações das outras três escolinhas que atendem exclusivamente bodyboarding, além daquela do Eduardo Freitas e a do Roberto Bruno e, depois, de maneira geral, das outras duas que funcionam também com o surf.

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Na Praia do Futuro encontramos a Escolinha Geração Bodyboarding (GBB), organizada por Patrícia Setúbal (pentacampeã estadual profissional e professora do esporte), Vagner Gomes (atleta e professor do esporte), Reginaldo Cabral (árbitro da ACEAB e professor do esporte). De acordo com projeto da GBB, a escolinha foi resultado da união de três iniciativas distintas e hoje desenvolve ações como “atividades físicas, laser, diversão, dinâmicas de grupo, meio ambiente com limpeza de praia, reuniões para conversas sobre comportamentos, união, respeito, saúde e conhecimento em sala de escolas públicas”. Eles atendem jovens, a partir de 12 anos de idade e funcionam sempre aos sábados e domingos entre 9:00 as 11:00 horas e 15:00 as 17:00 horas. Os principais benefícios descritos por Vagner estão em torno do crescimento dos alunos no esporte como atleta e cidadãos, bem como o apoio de amigos que ajudam a escolinha. Cabe informar, que a referida escolinha, este ano, engajou-se em um projeto temporário da atual gestão municipal da Prefeitura de Fortaleza. Apesar da oferta de atividades desse projeto, beneficiando essa escolinha, ainda almejamos por políticas públicas que consolidem atividades para demandas sociais de outros projetos sociais que funcionam na orla cearense, seja para o bodyboarding ou surf. Diante disso, as principais dificuldades da GBB são: funcionar sem estrutura física; ser uma escolinha sem fins lucrativos; não ter patrocínio fixo; e possuír pouco material (doação). Vale mencionar que este projeto fez vários campeões estaduais: em 2009, Renan da Silva na categoria iniciante; em 2013, William Cabral também na iniciante; em 2014, Victor Batista na amadora, Lucas Medeiros na sub-16 e  Mateus Gomes na estreante; em 2015, Diego Gomes na amadora e o irmão Mateus Gomes na iniciante; em 2016, Zacarias Nunes na estreante, Victor Batista na amadora e Diego Gomes na profissional; em 2017, Jamille Carvalho na amadora aqui na terrinha e profissional no circuito potiguar, além do José Welson na iniciante do nosso estadual. Entretanto, Diego Gomes também entrou para a história do esporte porque foi o campeão, na etapa brasileira do circuito mundial de 2016, da categoria profissional júnior, algo inédito para o país, e com um importante detalhe: isso aconteceu em Itacoatiara, no município carioca de Niterói, e com altas ondas.

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Importante enfatizar que temos atletas cearense campeões nas categorias feminino e masculino, em âmbito nacional e internacional, que representam o esporte com trabalho sério e comprometido, como Isabela Sousa (tetracampeã mundial, bicampeã brasileira profissional e campeã brasileira amadora), Roberto Bruno (pentacampeão brasileiro), Patrícia Setúbal (campeã brasileira amadora), Marília Alencar (campeã brasileira amadora), Erik Silvino (campeão brasileiro amador) e Vladinir Maciel (campeão brasileiro mirim). Sabemos de nosso potencial de atletas com habilidades incríveis e dedicação ao esporte.

Já na praia da Taíba, distrito do município cearense de São Gonçalo do Amarante, a Escolinha Maré Alta funciona desde 2008 sob a coordenação de Gilvan Rocha (Pité), Léo Morais e Cassote Santos. Em 2013, passou a receber o apoio, inicial, da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), após a aprovação em edital do Projeto Ideia da Gente. As principais atividades, com 56 crianças e jovens com idade entre 8 a 16 anos, são: aulas de bodyboarding, ações que envolvem o meio ambiente, artes e idiomas. Eles trabalham em parceria com o Conselho Comunitário da Taíba (CCT) e com o Governo Municipal de São Gonçalo do Amarante (SGA), por meio da Secretaria de Esportes e Juventude (SEJU) e da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS). As atividades acontecem três dias por semana de 8h às 10h e de 15h às 17h, às segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira. Uma vez ao mês, aos sábados, são organizados uma aula com atletas parceiros e profissionais de diferentes áreas. Os benefícios relatados por “Cassote” centram-se em “gratidão, por terem apoio da comunidade e dos responsáveis dos alunos”. Como principal dificuldade, ele mencionou a escassez de materiais que não suprem a demanda dos participantes (nadadeiras, lycras e cordinhas). No momento, a escolinha foi contemplada pela Associação dos Pescadores, por intermédio da Ceará Portos, com 10 bodyboards e 10 pares de nadadeiras, ampliando assim, o compromisso com os filhos e parentes da comunidade pesqueira.

Na praia do Náutico, durante a temporada de previsão de ondulações de norte que chegam com mais frequência na costa cearense, tem funcionado o projeto social “Bodyboarders”. As atividades do projeto atendem jovens entre 15 a 19 anos de idade e acontecem no período de 15 de outubro a 15 de abril, coordenado por Paulo Emílio Rocha. Dentre as principais ações desse projeto podemos mencionar: aulas de bodyboarding, ações que abrange o meio ambiente, além de noções básicas de fotografia. Os benefícios desse projeto centram-se em encontros e práticas do esporte, trabalho com jovens em situações de risco e formação de cidadãos atletas. Dentre as dificuldades estão a carência de “recursos para manter as ações durante o ano todo, até mesmo por questões de maré na Praia do Náutico (ondulações de norte)”, afirma Paulo.

De maneira geral, as outras duas escolinhas que desenvolvem atividades de bodyboarding e surf na orla cearense, além da PF Surf School, são:

Na praia da Barra do Ceará, a WestBeach SurfPoint (do Pedro Sousa e Roney Lopes). Além de desenvolver atividades de bodyboarding e surf, oferece aulas de idiomas, rodas de conversa sobre diversos temas, jogos, leituras, entre outras atividades.

Na praia da Taíba, funciona todos os dias, de 7h as 17h, a escolinha de bodyboarding e surf na Casa do P.A.S. (Ponto de Apoio ao Surf). Acontecem atividades pela escolinha KahaNalu Taiba Kids, que atende crianças e jovens da comunidade de 5 a 16 anos de idade. O local é coordenado por Érico Frota e conta com a colaboração de monitores. Oferecem uma aula de inglês por semana, além de pranchas, banho, água para beber e uma fruta todos os dias. Os principais benefícios são sociais e pessoais e as dificuldades centram-se em questões financeiras para manutenção. Eles utilizam como recursos para isso a “auto sustentabilidade, comercializando serviços no local, como aulas, aluguel, camping, hostel, fotos e alimentação”.

Diante desse contexto, percebo a disposição de grupos e de atletas que trabalham forte para contribuírem com as demandas sociais. Considero que nos últimos 20 anos, o esporte tem sido visto pela sociedade como ferramenta de inclusão social e de formação cidadã, mudando uma concepção cultural, de que este se caracterizava como atividade ociosa, negativa e marginal, fortemente vista na década de 80.

Atualmente, o surf faz parte da categoria de esporte olímpico. Esperamos que o bodyboarding também seja contemplado em um futuro próximo. No último final de semana, na terceira etapa do circuito nacional, ocorrido na Barra do Jucu, Vila Velha, Espirito Santo, e pela primeira vez na história do esporte, a maior entidade do país (Cbrasb – Confederação Brasileira de Bodyboarding) premiou a categoria feminina profissional da mesma forma que a masculina e nossa cearense Patrícia Setúbal foi diretamente beneficiada, pois conquistou o vice-campeonato da competição. Este fato evidencia um avanço cultural rompendo com diferenças de gênero. Deixo, aqui, o “grito de luta” por políticas públicas que atendam nosso esporte e se efetivem como inclusão social, contribuindo com a melhoria de vida de nossas crianças e jovens.

Fotografias: Marley Araújo

3 comentários

  1. Desenvolver um Projeto Social no modelo ESCOLINHA DE BODYBOARDING abrange basicamente o tripé: envolvimento da comunidade (pais e alunos), suporte didático (instrutores e monitores) e suporte financeiro (privado e/ou institucional). Infelizmente, o respaldo financeiro e logístico (ou sua ausência) limitam a idéia original das iniciativas esportivas, fazendo com que apenas a boa vontade de professores e alunos consigam manter os projetos funcionando. Contudo, um novo fator complicador foi estabelecido, qual seja, o Item SEGURANÇA. Trabalhar com um grupo heterogêneo de pessoas, impossibilita o conhecimento pleno das respectivas relações sociais intra e extra-grupo, repercutindo negativamente na segurança dos alunos, havendo já casos de ameaças e até de atentados a alguns deles. A esperança maior é que essa realidade mude e que se consiga enxergar que os alunos precisam muito mais de assistência social do que esportiva!

  2. Excelente cometário Amadeu! Muito pertinente e esclarecedor! Obrigada por sua contribuição. Meu objetivo com esse texto foi de visibilizar as atividades desenvolvidas por pessoas que vem lutando, a pelo menos uma década, utilizando o esporte, EM ESPECIAL, O BB, como inclusão social. É merecedor o reconhecimento de seu trabalho pioneiro, juntamente, com Eduardo como enfatizei no texto porque a labuta diária é de educadores que fazem com que isso aconteça. Isso é fato! Esperamos que um dia possamos ser atendidos nas questões sociais, dentre muitas, como atendimento psicológico, pedagógico, fonoaudiológico e físico, que o surf, em especial, deve fazer parte!!! Sabemos que o esporte é um ferramenta assertiva para o desenvolvimento e aprendizagem das pessoas. Como você apontou, CONCORDO COM VOCÊ, esse tripé é fundamental.

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